parte 3
Grandes quantidades de vinho circulavam. No século XlV, as exportações de Bordeaux para a Inglaterra eram tão importantes que sua média anual só foi superada em 1979. O rei Eduardo II da Inglaterra encomendou o equivalente a mais de 1 milhão de garrafas por ocasião de seu casamento com Isabel da França, no ano de 1308. Sob o reinado de Elisabeth I, quase três séculos mais tarde, os ingleses bebiam mais de 40 milhões de garrafas de vinho por ano, para uma população que na época contava 6,1 milhões de habitantes.
A demanda por bons vinhos para consumo diário ocupou vinhateiros e negociantes durante séculos. Mas por volta do final do século XVII surgiu uma demanda nova: esperava-se do vinho que ele proporcionasse uma experiência estética. O fato novo, na França e na Inglaterra, foi o surgimento de uma classe social com dinheiro e bom gosto, disposta a pagar mais para desfrutar um grande vinho.
É a essa geração que devemos o conceito de grande vinho tal como o conhecemos hoje. Até então, o vinho era bebido no ano da colheita; com a aproximação da vindima, o preço do vinho "velho" decrescia. Em 1714, entretanto, um comerciante parisiense já pedia a seu correspondente de Bordeaux "um bom vinho, vinho fino, velho, negro e aveludado". Nessa época já se sabia envelhecer e melhorar o vinho. Começava a era dos vinhos de qualidade
Foi
no Sul da França que apareceu, nos anos 1860, o mais devastador dos
flagelos da vinha. A filoxera é um pulgão do tamanho de uma
cabeça de alfinete que mata a vinha nutrindo-se do sumo de suas raízes.
Ela chegou da América do Norte por acidente, quando os navios a vapor
começaram a atravessar o oceano com velocidade suficiente para que
o parasita, presente nas plantas importadas, sobrevivesse à viagem.
Toda a Europa foi atingida: não houve um pé de vinha que escapasse dela, ou faltou pouco para isso. No fim de quarenta anos de devastações, encontrou-se a solução: as vinhas enxertadas em cepas americanas foram imunizadas. Mas a filoxera não foi o único problema: duas doenças, o oídio e o mildio, atingiram as vinhas européias na mesma época.
Em muitos aspectos, o mundo do vinho levou boa parte do século XX para se restabelecer da crise vivida no final do século XIX. Após a Primeira Guerra Mundial, o consumo europeu atingiu novos picos, mas o vinho, proveniente do Sul da França e do Norte da África, era medíocre. Os próprios grandes vinhos - de Bordeaux, da Borgonha, do Reno e do Mosel - eram vendidos a preços baixos: seus apreciadores, outrora prósperos, tinham sido duramente atingidos pelas guerras e pelas crises. Os vinhedos mais favorecidos eram os de fora do continente europeu: no Oeste dos Estados Unidos, na Austrália, na África do Sul e na Nova Zelândia, imigrantes oriundos da Europa plantavam em solos virgens para aplacar a sede dos outros colonos.
Os esforços empenhados para superar as conseqüências da filoxera e as crises econômicas acarretaram o desenvolvimento da legislação vitícola. Tratava-se também de combater a fraude: vinhos comuns vendidos sob grandes nomes, vinhos adulterados, traficados etc. Assim nasceram o sistema francês das denominações de origem (a Appellatíon d'Orígine Contrôlée - AOC) e as regulamentações que se inspiraram nele, ainda que parcialmente, em quase todo o mundo.